Revista nº 6

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Kenia Ballvé Behr
Psicóloga, psicanalista, sócia-fundadora e docente da Constructo 
Instituição Psicanalítica, editora da Constructo Revista de Psicanálise, 
fundadora e parte do Grupo Jean Laplanche Brasil

 

Nossa revista nº 6 está dividida em três partes.

 

1 – ARTIGOS

 

O primeiro deles, de autoria de Catherine Chabert, com o título As belas esperanças, discorre sobre um processo analítico, rastreando as vicissitudes da transferência e da contratransferência, inspirado centralmente nas ideias de Freud. Desde os primeiros encontros, as fantasias e as expectativas de ambas, paciente e analista, foram construindo a trama que se desenvolverá a partir daí e que vai permitir que elas, entre encontros e desencontros, se descubram, cada uma a partir do seu lugar, cada qual mantendo um olhar pleno de esperanças.

 

O artigo de Gleysse de Paula – A tríade do manejo da clínica do traumático no processo de (re)subjetivação do trauma: confiabilidade – holding – rêverie – aborda o tema do traumático a partir de Bion, Balint e Ferenczi, entre outros autores, acerca do trauma que não pode ser introjetado e simbolizado. A autora se interroga sobre a função da clínica como o espaço que possibilita ao indivíduo que viveu o trauma poder expressar verbalmente suas vivências, ressignificar sua experiência e recriar sua história.

 

A partir da teoria da sedução generalizada, de Jean Laplanche, Lilian Borges propõe um tema intitulado Quando a intromissão ultrapassa a implantação: um estudo de caso à luz da teoria da seduação generalizada. A autora discorre sobre o encontro fundante e traumático entre o infans e o adulto para definir um modelo de estruturação psíquica, enfatizando diferentes modalidades em que se dá o encontro dos dois protagonistas, visando à implantação e à intromissão da mensagem enigmática.

 

Rubens M. de Melo recorre ao pensamento de Lacan para debruçar-se sobre o conto genial O espelho, de Guimarães Rosa. Para pensar essa obra literária, ele usa como lente a tríade lacaniana: o Real, o Imaginário e o Simbólico, fundamentando, a partir daí, a análise da visão metafórica do autor. Ao mesmo tempo, analisa a linguagem, o olhar e o tempo, para pensar o inconsciente dos personagens do conto.

 

Clarissa de Carvalho, Élvis Bonini, Mariana Biazi e Tatiane França apresentam o artigo As (nem tão novas) cartografias desejantes e a sexualidade infantil, em que retomam conceitos psicanalíticos fundamentais referentes à sexualidade infantil, desenvolvidos no texto capital de Freud Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), e dialogam com as questões de gênero e sexo e as diversidades sexuais da atualidade. Além disso, fazem uma rápida entrevista com Jacques André. 

 

2 – ENSAIOS

 

A mulher estrangeira, de Jacques André:
“Louise não é menos ‘feminista’ do que as outras. É uma jovem de hoje, plenamente inserida em sua época. Suas palavras, ao contrário, possuem a atemporalidade do inconsciente. Não são palavras do passado, são palavras de sempre, por mais politicamente incorretas que se tenham tornado.”

 

A raposa, o filósofo e o psicanalista: algumas reflexões sobre o ofício de fazer perguntas, de Gabriel Ferreira:

“Este é, essencialmente, um texto sobre fazer perguntas. Perguntar é, para usar um termo caro aos filósofos medievais, um ‘próprio’ do humano, porque tal ação, em nós, é exposição de um desejo, de uma aspiração, feita de maneira essencialmente discursiva.”

 

A desromantização da maternidade, de Gabriela Seben: 

“O que será que uma mãe faz, além de ser mãe?

“Às mães, é negado que sentimentos de amor e de ódio, constitutivos do humano, coexistam, o que promove, além de sofrimento, a manutenção das idealizações. Não se toleram tristezas, cansaços e decepções, tão característicos daquelas que vivem no corpo e na carne a experiência da maternidade”.

 

3 – O INFANTIL

 

Um espaço para psicanálise com crianças, de Elisabeth Guarnier.
Mesa Redonda: Razões para uma revisão na psicopatologia psicanalítica infantil, de Elisabeth Guarnier, Luciana Pavão Kroeff e Maria Beatriz Tuchtenhagen.

 

Artigos 

Por que devemos revisar a psicopatologia infantil?, de Luciana Pavão Kroeff.
Neurose na infância sob novas perspectivas, de Maria Beatriz Tuchtenhagen.
Psicopatología en la constituición del Yo y la identidad, de María Florencia Almagro.
Adoção: desamparo e destinos, de Betina Ferronato e Camila Luvisa.

 

Na Mesa Redonda, apresentamos três posições sobre a psicanálise infantil, abrangendo o referencial teórico que sustenta a prática, as modificações mais importantes ocorridas no atendimento infantil nas últimas décadas, a presença dos adultos no processo do tratamento, as mudanças nos hábitos familiares, escolares e sociais sob o impacto da pandemia desde março de 2020 e sua interferência na clínica.

 

Eluza Enck (SBPdePA)
Giuliana Chiapin (SBPdePA / CEAPIA)
Rosistela Arruda (Constructo Instituição Psicanalítica)

 

Os textos apresentados neste número da revista referem-se a temas diversos, embora em cada um deles esteja presente, de alguma forma, a questão da identidade e do Eu. São fatores essenciais na constituição psíquica, sendo que essa construção não se restringe ao início da vida, não tem uma estabilidade formal ao longo de seu desenvolvimento, mantendo a possibilidade de alterações presentes até o final da vida.

 

A título de breve revisão diremos que, embora esses conceitos estejam no centro da teoria psicanalítica, existem aspectos não suficientemente esclarecidos por Freud, que assim permanecem até hoje, principalmente em relação à identificação. Esse tema apareceu precocemente na obra freudiana, mas foi mais esclarecido entre 1912 e 1923, com ênfase especial nos textos Luto e melancolia e O Eu e o id. Trata-se de uma identificação estruturante, que substitui a escolha de objeto, sendo protótipo do complexo de Édipo, como nos disse Freud. A relação ambivalente com o pai, no caso do menino, por exemplo, feita de amor e rivalidade, transforma-se parcialmente em identificação com o mesmo. Trata-se de uma identificação secundária, porque ocorre após um investimento de objeto, mas também porque tem relação com um modo mais primitivo de relação – com um conceito ainda um tanto enigmático, com versões contraditórias, definido como identificação primária, que ocorre num momento muito primitivo da vida, coincidindo com a relação com o objeto. É, ao mesmo tempo, relação com o outro e assimilação do outro, amor e incorporação juntos.

 

Em Luto e melancolia (1915), outra noção entra no entramado do processo de identificação: narcisismo e escolha de objeto narcísica. Nesse sentido, o narcisismo seria compreendido como amor dirigido ao Eu, sendo este constituído numa relação imediata com o outro. Isso significa que narcisismo e identificação narcísica são uma coisa só, numa relação ao mesmo tempo de amor e de identificação. Em O Eu e o id (1923), Freud define a identificação (primária) como “uma identificação muito antiga, arcaica, direta, imediata, anterior a todo investimento de objeto”.

 

As identificações primárias são constituintes do Eu e do narcisismo e, embora não sejam parte do inconsciente, este está na sua origem, já que as identificações são propostas pelo outro, que é um sujeito de inconsciente. Nas identificações enviadas pelo outro está presente inevitavelmente o ruído de seu inconsciente, que produz o enigma para a criança. E o encontro dessa mensagem enigmática com o psiquismo em constituição da cria humana resulta num metabolismo que é singular daquele sujeito, determinando que o produto daí resultante nunca seja o discurso/desejo do outro. A partir daí se inicia o processo de tradução, segundo penso, antes mesmo de estar totalmente constituído o psiquismo. 

 

A complexidade da organização no aparelho psíquico vai produzindo representações simbólicas, permitindo a construção de um Eu e de uma identidade que possam dar conta de comandar um funcionamento psíquico equilibrado. Mas, como referi inicialmente, essa construção não traz a garantia de se manter sempre igual, podendo apresentar alterações ao longo da vida.

 

E, entre essas oscilações, proponho pensar, com a ajuda de Michel De M’Uzan, que existem manifestações diversas que se originam no ser humano pela indeterminação dos limites do eu, que não são acompanhadas por episódios de angústia ou de desestruturação e que podem estar sendo recobertas por certa despersonalização.

 

Seriam abalos da identidade do sujeito, mais transitórios ou mais profundos, que podem surgir, entre muitas causas, no “arrebatamento” do momento da criação literária, em experiências de luto, em certos estados do analisando antes de uma tomada de consciência e, no analista, em momentos particulares da atenção flutuante.

 

Esses episódios não estão necessariamente ligados à psicopatologia, não são considerados acidentais e muito menos negativos. M’Uzan vê neles um dado fundamental da vida psíquica individual.

 

Afirma que esses momentos em que o Eu e o não Eu trocam facilmente de lugar implicam uma expansão considerável da experiência, permitindo ao indivíduo completar sua integração pulsional e tocar, assim, seu fundo mais autêntico. 

 

Longe de ser apenas sintomas, constituem a melhor oportunidade oferecida ao ser de escapar às identificações estranhas à sua verdade ou, dito de outra maneira, de construir a si mesmo, por si mesmo, sem risco de falsificação. M’Uzan nos diz:

 

Não existe indivíduo tão solidamente delimitado, tão “edipiano” que não esteja sujeito a passar a este outro mundo onde o “Eu” e o “ele” tendem incessantemente a se confundirem; mas na minha opinião, tampouco existe alguém para quem essa passagem na esfera intermediária da identidade incerta [...] não aporte um crescimento no sentido de sua própria verdade. [...] Eu considero essas vacilações do ser como momentos fecundos, até mesmo como os instantes mais autênticos da inspiração. Assim como o “arrebatamento” do escritor – que é de fato um despojamento de sua pessoa – muda a obra projetada em tarefa imperiosa e comunica-lhe as forças que ela necessita para tomar forma e individualizar-se, do mesmo modo, em geral, é nesses estados fora dos limites, onde o verbo “edipiano” cessa de se conjugar, que o ser pode encontrar algo que o possibilite mudar-se a si mesmo em obra a finalizar.

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Constructo Revista de Psicanálise

Edição 6: agosto de 2021

ISSN: 2525-2844

300 páginas

 

Esta revista foi composta com a tipologia Minion Pro e impressa no papel Pólem Soft 80g/m2

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